A nossa força de vontade é limitada. É importante termos consciência deste facto para não nos sentirmos pessoalmente culpados quando ela nos falha. Ter força de vontade e disciplina é importante, mas, ainda mais relevante, é evitar contextos que nos ponham em situações fragilizadas que dependam apenas da nossa força de vontade.

Assim, por exemplo, se estamos a deixar de fumar, devemos evitar ter cigarros em casa. Saber que temos de sair de casa e comprar cigarros envolve muito mais passos e torna-se muito mais difícil uma recaída se não temos cigarros à mão. O mesmo se passa quando fazemos uma dieta, a melhor forma de nos mantermos fiéis à dieta é não comprarmos doces e não irmos a locais onde sabemos que a oferta de alimentos pouco saudáveis é imensa. Sim, podemos ter doces em casa e manter a dieta, mas tal exige muito mais da nossa força de vontade. Ao evitarmos ir a locais tentadores, estamos a poupar a nossa força de vontade.

Charles Duhigg, autor do best seller A força do hábito retrata no livro um conjunto de experiências realizadas por investigadores que provam que a força de vontade é um músculo, isto é, assim como os músculos dos braços ou pernas, a força de vontade fica cansada se trabalha muito, havendo menos capacidade de ser utilizada para outros fins. [..] Se queres fazer algo que requere força de vontade – como correr depois do trabalho – tens de conservar o teu músculo durante o dia. Assim, tendo em conta que a força de vontade é limitada e não pode ser utilizada infinitamente, é importante dosearmos a sua utilização.

Assim, na nossa vida, e em particular na nossa vida financeira, devemos adotar o mesmo raciocínio, principalmente quando queremos melhorar hábitos de poupança. Devemos pensar e criar estratégias à priori, isto é, não apenas no momento da despesa, mas anteriormente, para que não dependamos apenas da nossa força de vontade para adotar hábitos saudáveis de poupança. Para isso é fundamental conhecermo-nos e refletirmos sobre as nossas fragilidades individuais.

Eu, por exemplo, sei que quando vou a um restaurante e me apetece uma determinada comida ou bebida raramente consigo resistir e não a escolher no momento, mesmo que seja cara. Assim, evito, a não ser em situações especiais, por exemplo, ir jantar fora a sítios com opções muitas caras, uma vez que terei de depender apenas da minha força de vontade para não as consumir, que é limitada no momento. Pode fazer o mesmo evitando ir a centros comerciais ou a outros locais “tentadores”, inclusive até supermercados mais caros e com produtos que nos chamam a atenção, mas que se não estivessem a nossa frente provavelmente não os consumiríamos.

Existem hábitos que podemos criar para nos recordarmos do aspeto financeiro na nossa vida e não dependermos apenas da força de vontade no momento, como por exemplo, guardar 15 minutos por semana para analisar os nossos gastos nessa semana e ver que percentagem já gastamos em cada categoria de gastos. Se já gastamos 200 euros em comida na primeira semana do mês, quando o nosso orçamento mensal é de 400, temos de ser conscientes nas semanas seguintes para poupar nesta categoria. Apontar os seus gastos sempre que os realiza também o pode ajudar a reduzir os mesmos, apenas pelo simples facto de escrever, seja no telemóvel ou num bloco de notas.  O primeiro passo para alterarmos o nosso comportamento é estar conscientes dele, por isso é importante estarmos informados de como se encontram as nossas finanças, por mais difícil que às vezes possa ser enfrentar ”a verdade”.

Reconhecermos que a nossa força de vontade pode ser trabalhada e fortalecida, mas ao mesmo tempo tendo consciência de que ela não é ilimitada são dois aspetos cruciais quando queremos criar hábitos mais saudáveis na gestão do nosso dinheiro. Conhecermos os nossos pontos fracos, em particular momentos do dia ou do mês em que sabemos que temos menor força de vontade, e planear antecipadamente para esses momentos é crucial. Desta forma, conseguimos ter controle sobre a nossa vida e sobre o nosso dinheiro em vez de deixarmos que o contexto nos controle a nós.

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