Eu tive a sorte de ter uma professora primária muito boa que me deu a primeira (e provavelmente única) lição de finanças pessoais na escola. Foi um exemplo fantástico que fiquei a pensar durante semanas. Embora o objetivo dela fosse alertar-nos para os riscos de saúde de fumar, sabendo que as crianças podem ter um papel importante dentro da família para aliciar os pais a deixar de fumar, aliado à prática de operações matemáticas, acabou por tocar em questões muito interessantes relacionadas com o dinheiro, bem como no conceito de custo de oportunidade.

O custo de oportunidade refere-se ao custo que incorremos ao escolher uma determinada opção pelo facto de não termos escolhido as opções alternativas, isto é, de uma forma simplista, está relacionado com o facto de, ao gastarmos dinheiro num determinado bem, estamos a não gastar noutro bem que poderia eventualmente trazer outros benefícios. O exemplo dado pela minha professora era o seguinte, com os valores atualizados para 2019: se um dos nossos pais fuma um maço de cigarros por dia, tal equivale a 5€ por dia, ou seja, 150€ por mês. Ao final de 1 ano, se não se gastasse dinheiro em cigarros, a nossa família teria disponível 1800€. Finalmente, discutimos o que poderíamos fazer com 1800€, concluindo que as opções eram inúmeras, entre as quais a mais apetecível seria fazer uma viagem em família todos os anos, coisa que muitos miúdos na minha escola primária, sem grandes meios monetários, nunca tinham feito.

Eu apercebi-me de 2 coisas importantes depois deste exemplo:

1) que qualquer bem que compremos tem um custo de oportunidade, i.e., que os 5€ gastos em cada maço de cigarros significava que não teríamos esse dinheiro para gastar noutro bem e portanto qualquer decisão de compra teria de ser bem avaliada na sua globalidade já que tem consequências nas outras áreas da vida. O dinheiro não é ilimitado e, portanto, escolher gastá-lo em determinado bem implica que não o possamos gastar noutro;

2) que é uma escolha nossa a forma como gastamos dinheiro. Ouvia sempre os adultos a falar de como tinham de trabalhar para pagar o empréstimo ou a renda da casa, a comida, etc. como se o tipo de casa, o tipo de comida e o tipo de escolhas que eles fizessem na vida fosse independente deles. De repente e sem pensar muito, tinha ali 1800€ que os meus pais podiam gastar por ano se não fumassem! É evidente que deixar de fumar é um processo muito complexo mas na minha cabeça de 7/8 anos isso não era muito claro.

O que me apercebi é que os adultos que me rodeavam sentiam que estavam reféns das escolhas de consumo que eles próprios faziam quase como se lhes tivessem sido impostas. Fumar, comprar uma casa, roupa, tudo eram opções deles, mas eles falavam quase como se tivessem obrigados a cumprir com aquele padrão de consumo, como se não houvesse outra escolha.

Naturalmente que aqui me refiro ao meu contexto e é dentro deste contexto que escrevo o conteúdo deste post, ou seja, sociedades ocidentais, isto é, países ricos ou relativamente ricos onde questões de pobreza extrema não se colocam de uma forma generalizada. Não querendo minimizar as lutas do dia-a-dia de ninguém, já que mesmo em países ricos pode haver situações muito complicadas, seja por questões de doença ou outras que levam a que saia fora do alcance individual o controle das suas próprias finanças. Excluindo essas situações, considero que existe valor monetário que todas as pessoas necessitam para poder ter um nível de bem-estar mínimo, mas a partir do momento em que esse mínimo se encontra satisfeito é uma responsabilidade individual a forma como gastamos o dinheiro.

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