Há três ideias que tendemos a criar relativamente a pessoas que gastam dinheiro em bens ou atividades tipicamente caras que eu gostaria de desmistificar, nomeadamente que quem gasta muito dinheiro é forçosamente rico, feliz e livre.

Pode à partida parecer contraintuitivo, mas as pessoas que gastam mais dinheiro não são necessariamente as mais ricas. A definição de riqueza tem a ver com o património que cada um detém, isto é, quantidade de ativos menos passivos. Os ativos incluem todos os bens que possuímos, sejam eles a nossa casa, carro (é discutível se devemos incluir o carro nos ativos ou não), investimentos e o dinheiro que temos disponível. Os passivos referem-se a todo o tipo de dívidas que temos, seja o empréstimo para a casa, carro ou outros.

Imaginemos alguém que tenha uma casa no valor de 500.000 Euros, um carro que vale 60.000 e apenas 20.000 disponível no banco em contas de poupança e à ordem. Ao mesmo tempo, essa pessoa tem um empréstimo de 450.000 da casa, do qual irá pagar um valor muito superior a 450.000 devido a juros, seguros e custos bancários (voltarei a este tema noutro post), 60.000 euros de empréstimo do carro e ainda 10.000 de dívida de cartão de crédito devido a umas férias que realizou no ano passado. A riqueza desta pessoa é, portanto, muito próxima de 0, ou seja, Ativos (500+60+20=580) – Passivos (450+60+10=520). Esta pessoa não é, de todo, rica. Por muito elevado que seja o seu rendimento mensal, também são muitos elevados os seus custos, nomeadamente pelo facto de ter de pagar empréstimos, montantes de seguro elevados pelo facto de deter bens caros, custos elevados de manutenção dos mesmos, etc.

Muitas vezes as pessoas com rendimentos elevados trabalham muitas horas ou têm um tipo de trabalho stressante, o que faz com que gastem mais dinheiro para compensar essa falta de tempo ou stress. Provavelmente a pessoa do exemplo gasta muito dinheiro também em comida já que não tem tempo de cozinhar, elevando, portanto, os seus gastos mensais nesta categoria. Sim, parece efetivamente rica, mas na realidade não o é. O dinheiro entra e sai todos os meses, não permitindo a acumulação.

Segundo o livro O milionário mora ao lado, o estudo mais extensivo feito sobre milionários nos Estados Unidos, os milionários não são os que vivem nas casas mais caras nem que compram as marcas mais dispendiosas, mas sim pessoas com casas boas mas não extravagantes e não necessariamente executivos de topo ou médicos. Quem mostra o dinheiro que tem atrás de gastos ostensivos geralmente está na tentativa de pertencer a um grupo ou classe social, ao mesmo tempo que necessita da valorização externa da sociedade do seu dinheiro, acabando por endividar-se ou por ter elevados custos mensais para poder consumir dessa forma, não conseguindo, portanto, acumular riqueza.

Embora tendemos a considerar estas pessoas bem-sucedidas, na verdade, muitas vezes, elas não são mais felizes. O consumo pode dar um aumento de felicidade momentânea, mas rapidamente o nosso nível de felicidade se ajusta ao que era antes da compra. Ao mesmo tempo, as pessoas que procuram status com o consumo tendem a ser motivadas por fatores externos em vez de fatores intrínsecos.

Segundo Dan Pink no seu livro Drive, de acordo com uma série de estudos, as pessoas orientadas pela autonomia e motivação intrínseca tentem a ter maior níveis de autoestima, melhores relações pessoais e bem-estar do que quem é motivado por fatores externos. As pessoas que buscam validações como dinheiro, fama ou beleza tendem a apresentar piores níveis de bem-estar. Além disso, as principais conclusões do maior estudo realizado sobre a felicidade ao longo do tempo têm a ver com o facto de serem as relações sociais positivas que efetivamente geram felicidade, assim como, incrivelmente, estão também relacionadas com mais saúde. Quem procura validações externas através do consumo, geralmente não atinge o nível de felicidade que pensaria atingir com esse consumo, ou, no melhor dos casos, atinge-o apenas no curto prazo, criando-se um ciclo vicioso de consumo elevado como busca desta validação.

Outro fator relacionado com o nível de felicidade de quem gasta muito dinheiro tem a ver com o stress que muitas vezes estas pessoas vivem. Segundo o autor de Pai Rico, Pai Pobreconheço pessoas que têm mais medo agora que são ricas (entenda-se aqui com rendimentos elevados) do que quando eram pobres. Tem medo de perder tudo. Não querem perder a casa grande, os carros e a vida que o dinheiro comprou. Preocupam-se com o que os outros diriam se perderem o seu dinheiro. Muitos encontram-se emocionalmente desesperados e neuróticos. As pessoas com rendimentos elevados, pelo facto de terem obrigações elevadas, seja na forma de dívida ou custos mensais, e pela necessidade que sentem de corresponder às expectativas dos outros, estão tao dependentes do dinheiro como quem tem rendimentos mais baixos. Não faz sentido estarmos a esforçar-nos tanto para ter um nível de rendimento elevado para depois viver reféns desses níveis de rendimento. Ficamos reféns de um estilo de vida que nos obriga a manter um trabalho e um tipo de vida muitas vezes stressante para o poder pagar do qual se torna difícil libertarmo-nos.

É o dinheiro que poupamos e não o que gastamos o que realmente nos traz paz de espírito e felicidade. Trabalhar para aumentar constantemente o nosso nível de consumo não nos vai trazer mais felicidade e, muito menos, liberdade. Conheço várias pessoas que emigraram do meu país de origem, como eu própria o fiz, com o objetivo de auferir um rendimento superior. Contudo, em vez de efetivamente pouparem valores significativos, acabam por aumentar o seu nível de consumo de forma tao elevada que não conseguem sequer ponderar a hipótese de regressar ao país de origem porque tal implicaria abdicar desse nível de consumo, como se a felicidade deles dependesse disso. Muitos sentem a vontade de voltar, por várias razoes, entre as quais a proximidade com família e amigos, mas não o fazem. Com um maior rendimento, deveriam ser mais livres para escolher onde querem viver, mas o que na realidade acontece é que se sentem mais limitados. Presos ao aumento do nível de vida que eles próprios criaram e acham que necessitam.

O primeiro passo para nos libertarmos da ideia generalizada do dinheiro gasto como medida de sucesso é perceber as suas limitações. Aspirar a um nível elevado de consumo não deve ser visto como uma obrigação que deverá vir com eventuais aumentos de rendimento ou de idade, até porque, como foi demonstrado, esse aumento do consumo não traz maior felicidade nem liberdade.

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